A SOLUÇÃO EGÍPCIA PARA A CONFERÊNCIA DO CAIRO
Agora que Reagan e os republicanos estavam fora do poder e o Presidente Clinton se havia comprometido com a sua causa, a IPPF [International Planned Parenthood Federation] acreditou que este seria o seu momento de triunfo. Cento e vinte e oito dos seus empregados haviam sido incluídos nas delegações nacionais. Vinte e dois membros da Planned Parenthood, incluindo o seu presidente, foram indicados para a delegação dos Estados Unidos. O presidente do principal comité era o Dr. Fred Sai, do Gana, presidente da IPPF. Supunha-se que os delegados fossem representantes de interesses nacionais, mas durante a Conferência eles mantinham encontros fechados para planear estratégias.
Num momento crucial das deliberações na Conferência, o Dr. Sai tentou fazer parecer que o Vaticano estava a bloquear o consenso sobre a linguagem a favor do aborto. A media veiculou a acusação em destaque. Os países islâmicos opuseram-se publicamente à promoção do aborto, assim como vários países latino-americanos. Outros países, que fizeram menos uso da palavra, agradeceram a liderança do Vaticano já que isto lhes havia permitido evitar incorrer na cólera das nações doadoras caso se houvessem pronunciado publicamente.
Os egípcios, na tentativa de salvar a Conferência, sugeriram um compromisso: a linguagem sobre saúde sexual e reprodutiva permaneceria no texto, mas um parágrafo introdutório seria colocado no início do documento, garantindo a soberania nacional e protegendo os valores religiosos. Apesar disto resolver o problema imediato, introduzia um precedente perigoso. Os promotores dos direitos reprodutivos e pró-sexuais poderiam então argumentar que os “fundamentalistas” estavam a utilizar a religião para se oporem aos direitos humanos. A plataforma também declarava claramente que a conferência não estava autorizada a conceder novos direitos humanos.
Para prejuízo da Conferência, a batalha sobre os direitos sexuais e reprodutivos havia ocupado o lugar central. Por causa disso, os delegados pró-família não tiveram tempo para se debruçarem sobre o Capítulo 4, “Igualdade e Equidade de Género e Empoderamento das Mulheres”, que advogava pela “participação igual e representação equitativa em todos os níveis do processo político e da vida pública”, e a “equidade de género em todas as esferas da vida, incluindo a vida familiar e comunitária”. Como as forças pró-família apoiavam entusiasticamente os direitos igualitários das mulheres, a maioria não viu perigo algum nestas secções.
A Conferência do Cairo acordou o movimento pró-família para os perigos de uma ONU activista. Em particular, criou um momento para que cristãos e muçulmanos reconhecessem que velhos estereótipos e desentendimentos ocultavam as suas concordâncias fundamentais sobre a importância da família, da vida e da fé. As forças pró-família haviam alcançado uma grande vitória no Cairo por terem percebido um “golpe de Estado” internacional practicamente certo por parte da Planned Parenthood e dos seus aliados. Elas tiveram que defender o quartel contra um inimigo em avanço mas que, no fim da batalha, não havia cedido uma única polegada de território. Embora não o tivessem percebido no momento, a causa pró-família havia sofrido uma grande perda no Cairo. “Género” e “direitos e saúde sexuais e reprodutivos” haviam encontrado o seu lugar dentro de um documento da ONU.
À medida que a Conferência se aproximava do final, Bella Abzug e as suas amigas, que haviam declarado, desde o início, que aquela seria a “sua” conferência, estavam frustradas e furiosas pelo facto de não haverem sido capazes de conseguir a aceitação do aborto como um direito humano. Elas retiraram-se para os bazares e as atracções turísticas do Cairo com a promessa: “Esperem até ao próximo ano. O que conseguimos aqui será conseguido em Pequim”.
A AGENDA DE GÉNERO
Redefinindo a Igualdade, Condensado da obra de Dale O’Leary “The Gender Agenda” 1997, Vital Issues Press, Lafayette, Lousiana
